Visualidade X Visibilidade

Depois de ser muito bem atendido pela assessoria de imprensa, minha credencial chegou e eu pude desfilar no maior evento de moda do nordeste, o Dragão Fashion, evento que eu acompanhei desde a época de filhote, que acontecia no Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar (por isso o nome) e agora se realiza (com mais cara de feira de automóveis que de evento de moda) no distante Centro de Convenções de Fortaleza.
Em menos de meia hora tomei duas taças de champangne, cumprimentei sete conhecidos e lembrei-me de uma famosa frase de um filósofo querido: Penso, logo existo.
Ta, ok, se Descartes estivesses presenciado o evento teria dito: penso, logo desisto. Mas não é o caso, por força e glória do senhor era apenas que andava pra lá e pra cá no meio de idéias, fatos, discursos (alguns somente visuais) comportamentos, e pessoas.

Segurando uma capanga antiga da Opera Rock debaixo do braço pude ver alguns desfiles em salas lotadas. Apresentadores da MTV de cabelos coloridos e ex maridos de modelos famosas arrancavam flashes e suspiros super discretos (claro, pq num evento de moda alencarino ser blasé ainda é tendência) enquanto eu só pensava na heiniken super gelada do stande da Floresta da Pipa. Falando assim, pode parecer que eu sou um personagem chato dos filmes do Woody Allen ou que o Jack Niconson é meu super herói preferido, mas não é isso, o fato é que as pessoas estavam mais dispostam a serem vistas do que propriamente a VEREM e isso me soa esquisito. Não sei se podemos culpar os lindos vendedores das lojas modernas, os DJs tocadores de CD ou os tão bem intencionados blogueiros (mais que sérios na primeira fila) ou se a culpa é dos tempos atuais, o tempo do achismo e da internet.

Era fácil ver nas enormes filas, pessoas multicoloridas entrarem enquanto sérios estudantes de moda eram barrados na porta do desfile, crianças com caderninhos na mão fazendo cara de “sim” e “não” para desestimulados bons estilistas locais.

Não vou nem falar dos estilistas SPFW, que chagaram a dispensar a imprensa em troca de peruas platinadas com suas fakes Chanel à tira colo deixando de fora os (mais uma vez sérios) blogueiros fashionistas furiosos e depois mais furiosos ainda ao serem assaltados na volta pra casa, pq os organizadores do evento não lembraram que a Washington Soares é uma das avenidas mais perigosas e esqueceram do policiamento.

Mas, o que estava em Volga mesmo era o valor da exposição, citando Foucault (perdão pela obsessão filosófica) que considerava as sociedades do mundo como sociedades do espetáculo, o Dragão Fashion serviu como expetáculo do ego.
Porque “dinheiro aqui não entra” como disse a estudante de moda, fashionista, blogueira, alta e bem intencionada, Mariana Castillo, ao contrario do desfile do estilista, artista e celebridade Lino Vilaventura que usou isso como critério, fechando o seu desfile para convidados quase pessoais = R$. Bem, nessa hora a contagem do champagnea já passava de uma dúzia.

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5 comentários

  1. Sèphira

    Adoro a forma como o Diego escreve. Sao textos com estilo proprio e inteligencia.
    Saber VER o mundo ainda è uma caracteristica de poucos. Gostei das suas observaçoes, Diego. 😉

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  2. Emanuella Maria

    Eu também gosto dos textos dele 🙂 Acho que seu texto faz a gente repensar alguns conceitos que estão por trás desse “mundo fashion” e daqueles que produzem os eventos..

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  3. Priscila Dias

    Super curti o post!! Muito bom o estilo dele de escrever, mas queria um dia sentar na primeira fila de um desfile de moda. Deve ser o máximo.

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  4. Rafita

    ele é audacioso, e isso em qualquer tempos é sempre uma otima revolução…
    foda.

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  5. Taís Ribeiro

    Isso aí é uma culta sinceridade! Falou a verdade e, falo “bonito”… acho o cúmulo essas listas de convidados, ou seja, se vc é um global eles devem te pagar pra aparecer lá no evento e, se bobear não comprar nenhuma peça de roupa, as vezes nem conhecer muito sobre a marca/ estilista …

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